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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

CLUBE MARÍTIMO AFRICANO



Uma lança anticolonial

O Clube Marítimo Africano foi fundado, em Lisboa, por um grupo de marítimos oriundos de África, designadamente António Rodrigues, Mário Van Dúnem, Abílio Rodrigues, Zito Van-Dúnem, António Paulo, João Mingas, António Mingas, José Bassanza Tomo, António Rede e Milagre Sebastião. Avultam ainda, como membros fundadores, os já falecidos, Francisco Barros Jak, Miguel Bartolomeu. Gomes, Florentino da Silva, Filipe Tati Mafuca, Domingos de Carvalho, Cândido Canda, Pedro António "Congo", João Pataca e Francisco Filipe Zau.

A este grupo de fundadores juntaram-se estudantes da Casa dos Estudantes do Império, entre os quais Agostinho Neto, Lúcio Lara, Humberto Machado, Fernando Costa Campos, Pedro Sobrinho, António Espírito Santo, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral, Eduardo Mondiane, Graça Tavares, Diógenes Boavida, José Chau Frete e Paixão Dias. Os objetivos eram a promoção do desporto, recreação e cultura, o que foi alcançado com grande êxito e eficácia. Quando foi fundado, em 1954, possuía sede social na Rua Augusto Rosa, junto à Sé Catedral de Lisboa, na qual funcionava um pequeno ginásio, uma escola para o ensino primário e secundário, cujos professores eram sócios do clube que prestavam esse serviço à comunidade africana graciosamente, havendo neste contexto a mencionar os nomes de Humberto Machado, Lúcio Lara, Pedro Sobrinho, António Espírito Santo, Júlia Camarinhas, Maria Eugenia Neto. Funcionava igualmente na sede um posto médico que facultava a assistência médica gratuita aos associados, havendo a mencionar os nomes dos associados médicos Arménio Ferreira e Eduardo Santos. No desporto, o Clube contou com a colaboração de desportistas eméritos, tais como Matos Fernandes, "Benda-vid", Joaquim Santana, Mário Coluna e outros.

A criação do Clube Marítimo Africano radica a existência, nos inícios dos anos cinqüenta, de uma comunidade africana em Portugal consciente da sua exploração e marginalização social, decorrente da dominação colonial a que as suas terras de origem se encontravam sujeitas. Nessa época, e principalmente em Lisboa, existia um estrato da população africana não identificada com a situação colonial que tomara consciência dos problemas que afetavam os seus países. Eram seus principais constituintes os Marítimos Africanos e alguns universitários africanos que faziam estudos em Portugal.

Foi com a ajuda desses estudantes revolucionários, entre os quais pontificava o futuro primeiro Presidente da Angola Independente, que foi fundado em Lisboa o Clube Marítimo Africano congregando os marítimos oriundos de Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné.

O Clube Marítimo Africano manteve a sua existência durante anos, no meio de grandes dificuldades financeiras, vivendo apenas da quotização dos seus associados e da carolice dos seus corpos diretivos que, para além dos marítimos integrava principalmente estudantes. Nos estatutos dava-se relevo à solidariedade entre os marítimos e procurava-se, na ação prática, alicerçar a capacidade crítica relativamente aos problemas que se agudizavam nas suas terras de origem com a política colonialista do governo português.

Nos primórdios da luta pela Independência de Angola e das outras colônias portuguesas, os maruniiu; estudantes nacionalistas executaram arriscadas tarefas de aliciamento, propaganda e de transporte de materiais e mensagens para as gentes da luta pela Independência. Alguns vieram a pagar a sua temeridade nos calabouços da Pide.

Na sede do Clube tiveram lugar muitas reuniões clandestinas, o que viria a culminar com o encerramento da sede do Clube Marítimo Africano e destruição de todo o arquivo e documentação e com a passagem à clandestinidade de muitos dos seus membros ativistas. As forças do poder passaram assim a exercer uma ação constante de perseguição e desmoralização sobre os associados do Clube Marítimo Africano, o que conduziu, durante a última gerência eleita em 1957 a uma grave crise. Sem sede, que lhe seria retirada pela Pide e com as outras agremiações impedidas de cederem as suas instalações para a realização de atividades culturais e recreativas, o Clube entrou em agonia e dissolução. Todavia, se a política colonialista portuguesa conseguiu destruir o Clube Marítimo Africano, não conseguiu destruir o espírito de unidade, de coesão e de solidariedade que se vivia entre os marítimos no momento em que se esboçavam os primeiros acontecimentos que iriam redundar na guerra de libertação dos países africanos sob dominação colonial portuguesa.

Durante a luta de libertação nacional, o mesmo punhado de marítimos angolanos continuou a lutar pela Independência de Angola através da luta clandestina, o que viria muitos anos mais tarde a ser reconhecido e consagrado com a atribuição, pela Assembléia Nacional de Angola, de condecorações a muitos marítimos pela sua participação na luta clandestina pela Independência Nacional.

* Artigo da revista "Angola Informação" da Embaixada de Angola em Lisboa, extraído de www.casadeangola.org

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